quarta-feira, 16 de junho de 2010

Defesa da Nova Lei da Comunicação na Argentina

Marcha pela Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual



Marcha por la plena vigencia de Ley de Medios en Argentina

Argentinos defendem implementação da Nova Lei da Comunicação no país

Confira as mobilizações na Argentina:



Milhares de pessoas se manifestaram na capital da Argentina, Buenos Aires, em defesa da implementação imediata da
Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual (SCA). A legislação, considerada muito avançada, foi sancionada no dia 10 de outubro do ano passado, mas uma
liminar a suspendeu. O lema da marcha foi defender a democracia é defender suas leis.


Fonte: Boletim NPC

Justiça argentina revoga suspensão da polêmica lei de comunicação

16/06/2010 |
Redação*
Portal Vermelho


A Corte Suprema da Argentina revogou, nesta terça (15), por unanimidade, uma medida cautelar da Justiça provincial de Mendoza que suspendia a Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, criada para substituir uma norma da época da ditadura militar (1976-1983).

Dessa maneira, os sete juízes anularam a resolução provisória demandada pelo deputado opositor Enrique Thomas. Na interpretação da Corte, Thomas "não tem legitimidade para reeditar na Justiça um debate que perdeu no Congresso".

A presidente argentina, Cristina Kirchner, se disse "muito contente" com a sentença e salientou que "o sistema jurídico honrou o seu funcionamento". "Estou contente porque foi restabelecida a autoridade do Parlamento argentino na sanção dessa lei", indicou a presidente.

De acordo com Cristina, o objetivo da Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual é diversificar a utilização dos sinais de rádio e televisão. A oposição, por sua vez, alega que a medida pode representar o controle total da "imprensa independente".

De acordo com a agência estatal Télam, "fontes vinculadas ao processo assinalaram que a decisão da Corte constitui 'uma mensagem para os que governam com medidas cautelares'".

Na sentença desta terça-feira, a Corte Suprema ressaltou que uma decisão provisória "que suspende a vigência da totalidade de uma lei com efeitos para toda a população é incompatível com a divisão de poderes e a racionalidade".

Apresentada pelo governo em agosto de 2009 e aprovada em outubro de 2009 pelo senado, a medida proíbe que os donos dos canais de TV aberta possuam também TV a cabo na mesma zona geográfica de transmissão, reduz quase pela metade o número de licenças permitidas para cada grupo de comunicação e submete as concessões à análise do governo a cada dois anos.

*com Ansa.

Audiência pública sobre a Confecom

foto I Confecom: Arthur Lobato

Hoje, dia 16 de junho, às 15 horas serão debatidos em Audiência pública os encaminhamentos da I Conferência Nacional de Comunicação.


Local:
Plenarinho 1 da Assembleia Legislativa de Minas Gerais
Rua Rodrigues Caldas,30 - Bairro Santo Agostinho
Belo Horizonte - MG - Brasil - Telefone (31) 2108 7715

A Confecom foi realizada entre os dias 14 e 17 de dezembro de 2009 e debateu propostas sugeridas nas conferências estaduais, ocorridas no mesmo ano. Na Conferência Nacional, foram discutidas questões relativas à criação de políticas públicas para o setor de comunicação.

Mais de 600 propostas foram aprovadas, entre elas, a defesa do diploma para o exercício da profissão de jornalista, a criação do Conselho Federal dos Jornalistas e dos Conselhos de Comunicação (nas esferas federal, estaduais e municipais), e a criação de uma nova Lei de Imprensa.

Pela primeira vez, reuniram-se representantes do Governo Federal, de outros setores do poder público, da sociedade civil e de segmentos do setor empresarial, para tratar de assuntos dessa natureza.

Convidados :
O procurador-geral da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e presidente da Comissão Organizadora da I Conferência Nacional de Comunicação, Marcelo Bechara; o subsecretário de Comunicação Social do Governo do Estado de Minas Gerais, Sérgio Esser; o presidente da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), Antônio Carlos Valente; o presidente da Associação Brasileira de Canais Comunitários (ABCcom), Edivaldo Amorim Farias; o presidente da Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra), Amilcare Dallevo Júnior; o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais, Aloísio Morais Martins; e o jornalista da Rede Record e coordenador do Blog Conversa Afiada, Paulo Henrique Amorim.


Leia também:

1ª Confecom evidencia necessidade de democratização da Comunicação no Brasil

A Confecom e os Avanços da Comunicação na América Latina

El Confecom y avances en la comunicación en América Latina

1ª Confecom - Balanço Geral

A grande mídia e a 1ª Conferência de Comunicação

Confecom aprova criação do Conselho Nacional de Jornalismo

Confecom - Homenagem a Daniel Herz

Lula abre Conferência Nacional de Comunicação

terça-feira, 15 de junho de 2010

Como transformar propostas em ações

Venício A. de Lima
Observatório da Imprensa
15/06/2010



Há algumas semanas comentei neste Observatório em relação às centenas de propostas aprovadas na 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) que, historicamente, entre nós, tem sido assim: na hora de transformar proposta em ação, os atores que de facto são determinantes na formulação das políticas públicas do setor de comunicações mostram o tamanho de sua força e os "não-atores" acabam, como sempre, excluídos . (ver "Confecom – O que foi feito de suas propostas?")

O primeiro passo para impedir que essa tradição seja mais uma vez confirmada foi dado em audiência pública realizada na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados na quinta-feira (10/6), atendendo a requerimento da deputada Luiza Erundina (PSB-SP).

Caderno oficial

Seis meses depois da realização da Confecom, finalmente temos um caderno oficial, publicado pelo Ministério das Comunicações e editado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. As propostas aprovadas – 633, 641 ou 665? – estão sendo organizadas em torno de cinco eixos: marco regulatório; regulamentação do artigo 221 da Constituição federal; direitos autorais; marco civil da internet e regulação da televisão pública (disponível aqui).

Por outro lado, relatório final de subcomissão criada na Câmara mostra que cerca de 35% (222 propostas) das 641 (?) propostas aprovadas na Confecom implicam alguma forma de ação legislativa no Congresso Nacional. Desse percentual, dois terços (ou 148) já é alvo de alguma ação (projeto de lei e/ou estudo legislativo), na Câmara ou no Senado. Uma relação desses projetos e ações agrupados em torno de nove temas – direitos humanos e de minorias; controle social da mídia; radiodifusão pública; produção nacional; convergência digital; conteúdo de interesse social; educação profissional; ética no jornalismo; proibição de monopólios e oligopólios pode ser encontrada aqui.

Ações concretas, só no futuro

Na audiência pública, o ministro Franklin Martins, da Secom, deixou claro que, do ponto de vista do governo, não há possibilidade de implementação de qualquer das propostas ainda em 2010 – e descartou, em particular, o Conselho Nacional de Comunicação (CNC).

A proposta do CNC, como se sabe, foi aprovada por unanimidade e tem sido considerada prioritária por todas as organizações e movimentos sociais – os "não-atores" – que participaram do processo da conferência.

Já a deputada Luiza Erundina informou que está sendo criada na Câmara uma Frente Parlamentar para dar encaminhamento e apoio às propostas. Quanto às organizações e movimentos sociais da sociedade civil, está sendo organizado, para julho, um seminário nacional que deverá, entre outras ações, criar uma lista de prioridades das propostas aprovadas na conferência.

O que esperar?

Não são novidade para ninguém as imensas dificuldades de regulação das comunicações em nosso país. Ao contrário de outros países da América Latina, por aqui os poucos avanços, quando ocorrem, são pequenos e lentos.

Registro como positiva a realização da audiência pública na Câmara dos Deputados, mas repito que sem pressão da sociedade organizada que luta pelo reconhecimento do direito à comunicação, nem o Executivo, nem o Legislativo respeitarão o resultado da Confecom.

Publicado em: www.observatoriodaimprensa.com.br

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Resoluções da 1ª Confecom são debatidas em audiência na CCTI

As resoluções da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) foram debatidas em audiência pública na Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática nesta quinta-feira (10/06). O Plano Nacional de Banda Larga, divulgado pelo governo em maio, foi o ponto mais polêmicos dos debates. Embora representantes do governo destacassem que algumas das resoluções da Confecom já estão sendo implementadas, os movimentos sociais querem que este processo seja acelerado.

Na audiência, o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Franklin Martins, disse que as 672 propostas aprovadas na 1ª Confecom estão sendo examinadas para que sejam identificadas quais delas implicam em mudanças no marco legal da comunicação no país. Muitas das propostas aprovadas na Conferência remetem à regulamentação do artigo 221 da Constituição, que estabelece princípios para a comunicação eletrônica, como o estímulo à produção de conteúdo independente e a regionalização da produção. Segundo Martins, após essa análise o governo encaminhará recomendações para o Congresso Nacional.

O ministro lembrou que a instituição do marco regulatório civil da internet e a ampliação do acesso da banda larga também foram mencionadas em grande parte das diretrizes aprovadas na conferência. E teve o reforço do procurador-geral da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Marcelo Bechara, que coordenou o processo da 1ª Confecom e reafirmou que o governo já está implementando algumas diretrizes, como o Plano Nacional de Banda Larga e o marco regulatório civil na internet, que estava em consulta pública até 2 de junho e cujo anteprojeto de lei deve ser encaminhado ao Congresso Nacional ainda em 2010.

No embalo da temática, o superintendente-executivo da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), Cesar Rômulo Silveira Neto, cutucou o governo ao afirmar que o setor de telecomunicações vive a situação peculiar de implementar proposta rejeitada na 1ª Confecom. Referia-se ao movimento do governo de fortalecer a Telebrás para fornecer serviços de telecomunicações e coordenar a criação de infraestrutura pública para oferta de internet de banda larga.

Para Roseli Goffman, da Coordenação Executiva do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), a participação da Telebrás no Programa Nacional de Banda Larga é de interesse do Estado e da sociedade brasileira. Segundo ela, a proposta rejeitada na Confecom foi apresentada por movimentos sociais ligados à democratização das comunicações. A rejeição ocorreu porque a bancada empresarial presente na Conferência votou em bloco contra a proposta. A representante do FNDC também defendeu a aprovação, pelo Congresso Nacional, de lei que permita a utilização do Fundo de Universalização das Telecomunicações (Fust) no programa de banda larga.

Outros temas abordados na audiência na CCTI foram o Projeto de Lei 29/07, que abre o mercado de televisão a cabo para as concessionárias de telefonia fixa e institui cotas de conteúdo nacional e independente na TV por assinatura, que tem apoio do governo, a instituição de novas regras para as rádios comunitárias, a instalação do Conselho de Comunicação Social (CCS) pelo Senado, a proibição de concessões de rádio e TV a detentores de cargos públicos, a adoção de mecanismos de participação social na formulação de políticas públicas para o setor, a adoção de uma Lei Geral da Radiodifusão e a regulamentação do artigo 220 da Constituição, que proíbe o monopólio dos meios de comunicação.

Redação
FENAJ - Federação Nacional dos Jornalistas
*com informações da Agência Câmara.

Audio da Reunião Ordinária de Audência Pública

Internet vs. Mídia tradicional: mudança sem retorno

Pesquisa revela que 83% dos consumidores de mídia no Brasil produzem seu próprio conteúdo de entretenimento usando, por exemplo, programas de edição de fotos, vídeos e músicas. O público de faixa etária entre 26 e 42 anos é o mais envolvido com atividades interativas na rede.

Venício Lima
Para Carta Maior em 21/05/2009

Duas pesquisas divulgadas recentemente mostram, de forma inequívoca, a dimensão das mudanças que estão ocorrendo no “consumo” de mídia, tanto no Brasil como no mundo. Elas são tão rápidas e com implicações tão profundas que, às vezes, provocam reações inconformadas de empresários e/ou autoridades que revelam sérias dificuldades para compreender ou aceitar o que de fato está acontecendo no setor de comunicações.

Internet supera TV

A primeira dessas pesquisas é “O Futuro da Mídia” desenvolvida pela Deloitte e pelo Harrison Group. A Deloitte é a marca sob a qual profissionais que atuam em diferentes firmas em todo o mundo colaboram para oferecer serviços de auditoria e consultoria. Essas firmas são membros da Deloitte Touche Tohmatsu, uma verein (associação) estabelecida na Suíça. Já o Harrison Group é uma consultoria independente com sede nos EUA.

A pesquisa, realizada simultaneamente nos EUA, na Alemanha, na Inglaterra, no Japão e no Brasil, identificou como pessoas entre 14 e 75 anos “consomem” mídia hoje e o que esperam da mídia no futuro. A coleta de dados foi feita entre 17 de setembro e 20 de outubro de 2008 e a amostra foi dividida em quatro grupos de faixas etárias: a “Geração Y”, com idade entre 14 e 25 anos; a “Geração X”, que tem entre 26 e 42 anos; a “Geração Baby Boom”, formada por pessoas entre 43 e 61 anos; e a “Geração Madura”, que compreende os consumidores entre 62 e 75 anos. No Brasil, foram ouvidas 1.022 pessoas, classificadas nas quatro faixas etárias.

Vale a pena transcrever o que a própria Deloitte relata sobre alguns dos resultados referentes ao Brasil (cf. Deloitte, Mundo Corporativo n. 24, abril/junho 2009).
http://www.deloitte.com/view/pt_BR/br/nossaempresa/index.htm

O levantamento mostra que o Brasil, com um mercado formado essencialmente por um público jovem é, dos cinco países participantes da pesquisa, aquele em que os consumidores gastam mais tempo por semana consumindo informações ofertadas pelos mais variados meios de comunicação e se mostram especialmente envolvidos com atividades on-line. Os consumidores brasileiros gastam 82 horas por semana interagindo com diversos tipos de mídia, incluindo o celular. Para a grande maioria (81%), o computador superou a televisão como fonte de entretenimento. Os videogames e os jogos de computador constituem importantes formas de diversão para 58% dos entrevistados. (...)

Uma das principais informações reveladas é que o usuário quer participar, interferir. De acordo com as entrevistas realizadas com o público nacional, 83% dos consumidores de mídia produzem seu próprio conteúdo de entretenimento usando, por exemplo, programas de edição de fotos, vídeos e músicas. O público de faixa etária entre 26 e 42 anos é o mais envolvido com atividades interativas na rede. Quanto mais jovem, mais propenso a produzir seu próprio conteúdo on-line.

Um dado extremamente revelador é que assistir à televisão é a fonte de entretenimento preferida pelos entrevistados de todos os países participantes da pesquisa, com exceção do Brasil. Entre nós, a TV aparece em terceiro lugar, as revistas em sétimo, o rádio em nono e os jornais em décimo.

O quadro (adaptado) abaixo revela as preferências brasileiras.

Fontes de entretenimento favoritas - Brasil

1º - Assistir a filmes em casa (não inclui filmes na TV) .........55 %
2º - Navegar na internet por interesses pessoais ou sociais....53 %
3º - Assistir à televisão .......................................................46 %
4º - Ouvir música (usando qualquer dispositivo ...................36 %
5º - Ir ao cinema ................................................. ...............30 %
6º - Ler livros (impressos ou on-line) ....................................25 %
7º - Ler revistas (impressas ou on-line) .................................16 %
8º - Jogar videogames ou jogos de computador .....................14 %
9º - Ouvir rádio ...................................................................13 %
10º - Ler jornais (impressos ou on-line) .................................12 %
.
Para um país acostumado – há décadas – à hegemonia não só da televisão, mas de uma única rede de TV, esses dados não deixam de ser surpreendentes.

Participação ativa
Já a vontade majoritária de participar e interferir na construção do conteúdo, revelada pelos entrevistados brasileiros, acaba de vez com a idéia do obtuso “Homer Simpson” (cf. L. Leal Filho, “De Bonner para Homer”, Carta Capital, 7/12/2005) e com o mito da passividade dos nossos leitores, ouvintes e telespectadores.

Mais do que isso, os dados colidem frontalmente com as práticas históricas dos principais grupos de mídia brasileiros que, salvo raras exceções, sequer admitem a existência de ouvidorias ou de ombudsman em suas empresas.

A supremacia das redes sociais
A pesquisa Deloitte/Harrison faz referencia a outra pesquisa divulgada em junho de 2008 pelo Ibope/Net Ratings sobre o surgimento das “redes sociais virtuais”, ou seja, os sites de relacionamento que reúnem internautas com os mesmos interesses. Segundo esta pesquisa, 18,5 milhões de pessoas haviam navegado neste tipo de site em maio de 2008. Se somados os fotologs, videologs e programas de mensagens instantâneas, o número salta para 20,6 milhões.

Pois bem. No painel de abertura do 8º Tela Viva Móvel, dia 20/5, em São Paulo, o gerente de conteúdo e aplicações da Oi, Gustavo Alvim, informa que as redes sociais já desempenham papel mais importante que o acesso a emails no cenário da internet mundial. Em média, enquanto 65,1% dos usuários mundiais de internet acessam emails, 66,8% acessam redes sociais. "E o Brasil é o líder absoluto em redes sociais, com 85% de seus internautas que acessam pelo menos uma rede social".

Os dados vêm confirmar a aplicabilidade da hipótese do “long tail” (Chris Anderson) à “cultura convergente” – como faz Henry Jenkins – e, particularmente, reafirmar a tendência já prevalente da contextualização, análise e organização capilar de conteúdos, inclusive os jornalísticos, em sites e blogs, deixando para trás os velhos modelos dos jornais impressos diários.

“Pendurados na internet”

Diante desses dados – e das importantes transformações que sinalizam – é que se deve compreender a recente declaração do senhor ministro das Comunicações na abertura do 25º Congresso Brasileiro de Radiodifusão, no dia 19/5, em Brasília.

Segundo relata Mariana Mazza do Televiva News, depois de fazer uma vigorosa defesa da radiodifusão e registrar o abismo entre o faturamento da radiodifusão e das telecomunicações – "o setor de comunicação fatura R$ 110 bilhões por ano. Desse total, somente R$ 1 bilhão é do rádio e R$ 12 bilhões das TVs. O resto vocês sabem muito bem onde está" –, o ministro sugeriu que os jovens devem usar menos a internet e assistir mais programas de TV e de rádio. "Essa juventude tem que parar de só ficar pendurada na internet. Tem que assistir mais rádio e televisão".

Ao que parece o senhor ministro – e os radiodifusores que ele tão bem representa – estão realmente perdendo o “bonde da história”.


* Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

DEBATE ABERTO
Carta Maior

terça-feira, 8 de junho de 2010

Frei Betto e os "oráculos da verdade"


Artigo de Frei Betto, publicado no jornal Correio Braziliense:

O filósofo alemão Emmanuel Kant não anda muito em moda. Sobretudo por ter adotado em suas obras uma linguagem hermética. Porém, num de seus brilhantes textos (O que é o Iluminismo?) sublinha um fenômeno que, na cultura televisual que hoje impera, se torna cada vez mais generalizado: as pessoas renunciam a pensar por si mesmas. Preferem se colocar sob proteção dos oráculos da verdade: a revista semanal, o telejornal, o patrão, o chefe, o pároco ou o pastor.

Esses, os guardiões da verdade que, bondosamente, velam para não nos permitir incorrer em equívocos. Graças a seus alertas sabemos que as mortes de terroristas nas prisões made in USA de Bagdá e Guantánamo são apenas acidentes de percurso comparadas à morte de um preso comum, disfarçado de político, num hospital de Cuba, em decorrência de prolongada greve de fome.

São eles que nos tornam palatáveis os bombardeios dos EUA no Iraque e no Afeganistão, dizimando aldeias com crianças e mulheres, e nos fazem encarar com horror a pretensão de o Irã fazer uso pacífico da energia nuclear, enquanto seu vizinho, Israel, ostenta a bomba atômica.

São eles que nos induzem a repudiar o MST em sua luta por reforma agrária, enquanto o latifúndio, em nome do agronegócio, invade a Amazônia, desmata a floresta e utiliza mão de obra escrava.

É isso que, na opinião de Kant, faz do público Hausvieh, gado doméstico, arrebanhamento, de modo que todos aceitem, resignadamente, permanecer confinados no curral, cientes do risco de caminhar sozinho.

Kant aponta uma lista de oráculos da verdade: o mau governante, o militar, o professor, o sacerdote etc. Todos clamam: Não pensem! Obedeçam! Paguem! Creiam! O filósofo francês Dany-Robert Dufour sugere incluir o publicitário que, hoje, ordena ao rebanho de consumidores: Não pensem! Gastem!

Tocqueville, autor de Da democracia na América (1840), opina em seu famoso livro que o tipo de despotismo que as nações democráticas deveriam temer é exatamente sua redução a um rebanho de animais tímidos e industriosos, livres da preocupação de pensar.

O velho Marx, que anda em moda por ter previsto as crises cíclicas do capitalismo, assinalou que elas decorreriam da superprodução, o que de fato ocorreu em 1929. Mas não foi o que vimos em 2008, cujos reflexos perduram. A crise atual não derivou da maximização da exploração do trabalhador, e sim da maximização da exploração dos consumidores. Consumo, logo existo, eis o princípio da lógica pós-moderna.

Para transformar o mundo num grande mercado, as técnicas do marketing contaram com a valiosa contribuição de Edward Bernays, duplo sobrinho estadunidense de Freud. Anna, irmã do criador da psicanálise e mãe de Bernays, era casada com o irmão de Martha, mulher de Freud. Os livros deste foram publicados pelo sobrinho nos EUA. Já em 1923, em Crystallizing Public Opinion, Bernays argumenta que governos e anunciantes são capazes de arregimentar a mente (do público) como os militares o fazem com o corpo.

Como gado, o consumidor busca sua segurança na identificação com o rebanho, capaz de homogeneizar seu comportamento, criando padrões universais de hábitos de consumo por meio de uma propaganda libidinal que nele imprime a sensação de ter o desejo correspondido pela mercadoria adquirida. E quanto mais cedo se inicia esse adestramento ao consumismo, tanto maior a maximização do lucro. O ideal é cada criança com um televisor no próprio quarto.

Para se atingir esse objetivo é preciso incrementar uma cultura do egoísmo como regra de vida. Não é por acaso que quase todas as peças publicitárias se baseiam na exacerbação de um dos sete pecados capitais. Todos eles, sem exceção, são tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista.

A inveja é estimulada no anúncio da família que possui um carro melhor que o do vizinho. A avareza é o mote das cadernetas de poupança. A cobiça inspira as peças publicitárias, do último modelo de telefone celular ao tênis de grife. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos assegurado por planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta das confortáveis sandálias que nos fazem relaxar ao sol.

A luxúria é marca registrada dos jovens esbeltos e das garotas esculturais que desfrutam vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula envenena a alimentação infantil na forma de chocolates, refrigerantes e biscoitos, induzindo a crer que sabores são prenúncios de amores.

Na sociedade neoliberal, a liberdade se restringe à variedade de escolhas consumistas; a democracia, em votar nos que dispõem de recursos milionários para bancar a campanha eleitoral; a virtude, em pensar primeiro em si mesmo e encarar o semelhante como concorrente. Essa, a verdade proclamada pelos oráculos do sistema.

*Frei Betto é um dos mais importantes e reconhecidos intelectuais brasileiros. Escreveu quase 50 títulos diferentes, entre romances, ensaios e artigos.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Imprensa não torce



Paulo Vinicus Coelho

Técnico e atletas acreditam que uma das missões dos jornalistas é ajudar a seleção. Estão enganados

JORNALISTA NENHUM vai à Copa do Mundo para cobrir seu próprio umbigo, ou seja, ninguém viaja para falar da própria imprensa. Para discuti-la, já existem sites e programas suficientes, como o Comunique-se e o "Observatório da Imprensa".

Mas a semana em Johanesburgo registrou tantas confusões sobre o correto papel dos jornalistas que exige uma reflexão. Já na primeira pergunta, da primeira entrevista coletiva, a apresentadora da TV Record Mylena Ciribelli errou na medida: "Queria dizer que, antes de jornalistas, somos torcedores do Brasil", afirmou. Nem ela está certa nem o técnico da seleção, ao dizer que há 300 jornalistas torcendo contra o Brasil.

Cada frase mal formulada, por quem tem por ofício usar as palavras, aumenta o tamanho da bagunça mental de quem joga o Mundial.

Os jogadores e o técnico acham mesmo que uma das missões da imprensa é ajudar a seleção. Não é.

"Eu conheço muitos jornalistas que torcem a favor", disse Kaká, na sexta-feira. Mais uma confusão. Jornalista nenhum deve ir à Copa para torcer, nem contra nem a favor de seleção nenhuma.

Não quer dizer que se esteja proibido de socar o ar na hora do gol. Quer dizer que os jogadores e a comissão técnica deveriam entender que uma notícia não deixará de ser publicada, nenhuma crítica deixará de ser feita, mesmo que provoque um terremoto na concentração brasileira. O tempo dirá se a avaliação foi correta ou equivocada.

No exercício de sua profissão, jornalista não tem time, não tem amigo nem inimigo. Seu gol é a notícia. Gol contra é informação errada. Nesse caso, é preciso corrigir rápido e, mesmo assim, a seleção terá razão em brigar, espernear, processar.

Mas não diga que os jornalistas não notaram a educação dos zimbabuanos só porque preferiram o enfoque político, por jogar na terra do ditador Mugabe. A muitos, isso pareceu mais relevante.

Como nos dias de blogs e portais todo mundo é jornalista ou pensa que é, Dunga também esteve do outro lado do balcão. Foi comentarista da TV Bandeirantes, em 2006. Pois na quinta, ao dizer que a imprensa foi quem disse primeiro que Weggis foi uma balbúrdia, foi questionado sobre a sua opinião. Respondeu que não ia aos treinos e só comentava jogos no estúdio ou no estádio.

De fato, a rotina dos comentaristas de TV exige muito tempo no Centro de Imprensa. Mas ir à Copa e não ver nenhum treino? Dunga não entende mesmo o papel dos jornalistas.

*pvc@uol.com.br
06/06/2010
Folha de S. Paulo

Comissão avalia desdobramentos da conferência de comunicação


A Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática realiza nesta quinta-feira (10) audiência pública para debater a implementação das propostas aprovadas pela 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada em dezembro do ano passado.

A iniciativa partiu da deputada Luiza Erundina (PSB-SP). Ela pretende avaliar com os vários segmentos os desdobramentos da Confecom, que aprovou 672 resoluções resultantes de debates sobre o direito à comunicação. Segundo a deputada, a efetivação de muitas dessas resoluções dependerá de iniciativas dos poderes Executivo ou Legislativo.

Foram convidados:

- o ministro das Comunicações, José Artur Filardi Leite;

- o ministro da Cultura, João Luiz Silva Ferreira;

- o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Franklin Martins;

- o assessor especial da Casa Civil da Presidência da República André Barbosa;

- o presidente da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), Antônio Carlos Valente da Silva;

- o presidente da Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra), Amilcare Dallevo Júnior;

- o coordenador-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Celso Schröder;

- o diretor do Coletivo Brasil de Comunicação Social (Intervozes), Jonas Valente;

- a presidente da Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec), Regina Lima;

- o coordenador-executivo da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço), José Luiz Nascimento Sóter;

- o presidente da Associação Brasileira de Canais Comunitários (Abccom), Edivaldo Farias;

- o coordenador da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Radiodifusão e Televisão (Fitert), Nascimento Silva.

A audiência será realizada às 9h30 no plenário 13.


07/06/2010
Redação
Câmara dos Deputados

sábado, 5 de junho de 2010

Dica de Cinema: Mary e Max


Mary e Max - Uma amizade diferente (Mary and Max, Austrália, 2009)

Animação do premiado roteirista e diretor Adam Elliot sobre uma inusitada amizade entre uma menina australiana de 8 anos, Mary Dinkle, e um quarentão, Max Horovitz, que vive em Nova York. O sentimento de inadequação une os dois, que acham o mundo intrigante e incompreensível. Durante anos, eles trocam idéias sobre vários assuntos como amizade, autismo, alcoolismo, origem dos bebês, obesidade, cleptomania, diferença sexual, confiança e diferenças religiosas. A voz de Mary quando criança é da atriz Bethany Whitmore e, quando adulta, da estrela Toni Collette. Max, por sua vez, é dublado por Philip Seymour Hoffman. Em 2004, Adam recebeu o Oscar de Melhor Curta de animação por "Harvie Krumpet", história de um solitário imigrante polonês. O curta levou o prêmio de Melhor Filme escolhido pelo público brasileiro, no Festival Anima Mundi, no mesmo ano.

Boff: A saudade do servo na velha diplomacia brasileira



por Leonardo Boff,

O filósofo F. Hegel em sua Fenomenologia do Espírito analisou detalhadamente a dialética do senhor e do servo. O senhor se torna tanto mais senhor quanto mais o servo internaliza em si o senhor, o que aprofunda ainda mais seu estado de servo. A mesma dialética identificou Paulo Freire na relação oprimido-opressor em sua clássica obra Pedagogia do oprimido. Com humor comentou Frei Betto: “em cada cabeça de oprimido há uma placa virtual que diz: hospedaria de opressor”.

Quer dizer, o opressor hospeda em si oprimido e é exatamente isso que o faz oprimido. A libertação se realiza quando o oprimido extrojeta o opressor e ai começa então uma nova história na qual não haverá mais oprimido e opressor mas o cidadão livre.

Escrevo isso a propósito de nossa imprensa comercial, os grandes jornais do Rio, de São Paulo e de Porto Alegre, com referência à política externa do governo Lula no seu afã de mediar junto com o governo turco um acordo pacífico com o Irã a respeito do enriquecimento de urânio para fins não militares. Ler as opiniões emitidas por estes jornais, seja em editoriais seja por seus articulistas, alguns deles, embaixadores da velha guarda, reféns do tempo da guerra-fria, na lógica de amigo-inimigo é simplesmente estarrecedor.

O Globo fala em “suicídio diplomático”(24/05) para referir apenas um título até suave. Bem que poderiam colocar como sub-cabeçalho de seus jornais:”Sucursal do Império” pois sua voz é mais eco da voz do senhor imperial do que a voz do jornalismo que objetivamente informa e honestamente opina. Outros, como o Jornal do Brasil, tem seguido uma linha de objetividade, fornecendo os dados principais para os leitores fazerem sua apreciação.

As opiniões revelam pessoas que têm saudades deste senhor imperial internalizado, de quem se comportam como súcubos. Não admitem que o Brasil de Lula ganhe relevância mundial e se transforme num ator político importante como o repetiu, há pouco, no Brasil, o Secretário Geral da ONU, Ban-Ki-moon. Querem vê-lo no lugar que lhe cabe: na periferia colonial, alinhado ao patrão imperial, qual cão amestrado e vira-lata. Posso imaginar o quanto os donos desses jornais sofrem ao ter que aceitar que o Brasil nunca poderá ser o que gostariam que fosse: um Estado-agregado como é Hawai e Porto-Rico.

Como não há jeito, a maneira então de atender à voz do senhor internalizado, é difamar, ridicularizar e desqualificar, de forma até antipatriótica, a iniciativa e a pessoa do Presidente. Este notoriamente é reconhecido, mundo afora, como excepcional interlocutor, com grande habilidade nas negociações e dotado de singular força de convencimento.

O povo brasileiro abomina a subserviência aos poderosos e aprecia, às vezes ingenuamente, os estrangeiros e os outros povos. Sente-se orgulhoso de seu Presidente. Ele é um deles, um sobrevivente da grande tribulação, que as elites, tidas por Darcy Ribeiro como das mais reacionárias do mundo, nunca o aceitaram porque pensam que seu lugar não é na Presidência mas na fábrica produzindo para elas. Mas a história quis que fosse Presidente e que comparecesse como um personagem de grande carisma, unindo em sua pessoa ternura para com os humildes e vigor com o qual sustenta suas posições .

O que estamos assistindo é a contraposição de dois paradigmas de fazer diplomacia: uma velha, imperial, intimidatória, do uso da truculência ideológica, econômica e eventualmente militar, diplomacia inimiga da paz e da vida, que nunca trouxe resultados duradouros.

E outra, do século XXI, que se dá conta de que vivemos numa fase nova da história, a história coletiva dos povos que se obrigam a conviver harmoniosamente num pequeno planeta, escasso de recursos e semi-devastado.

Para esta nova situação impõe-se a diplomacia do diálogo incansável, da negociação do ganha-ganha, dos acertos para além das diferenças. Lula entendeu esta fase planetária. Fez-se protagonista do novo, daquela estratégia que pode efetivamente evitar a maior praga que jamais existiu: a guerra que só destrói e mata.

Agora, ou seguiremos esta nova diplomacia, ou nos entredevoraremos. Ou Hillary ou Lula. A nossa imprensa comercial é obtusa face a essa nova emergência da história. Por isso abomina a diplomacia de Lula.

Leonardo Boff é Teólogo e autor de Nossa ressurreição na morte, Vozes 2007